Discurso para a Sessão Solene em Homenagem ao Centenário do Escotismo no Brasil
Assembléia Legislativa Estadual, Natal - RN, 3 de Maio de 2010
Diretor presidente, Carlos Pinto

Hoje comemoramos o centenário do Movimento Escoteiro no Brasil, aquele que é o maior movimento de juventude do mundo, com mais de 28 milhões de membros, presente em 160 países e inserido nas mais diversas culturas, crenças e classes sociais. No Brasil são mais de 60 mil associados, 3 mil em nosso estado, entre voluntários jovens e adultos, moças e rapazes.
Seu Projeto Educativo visa à formação de cidadãos ativos e participativos, por meio de seu método de educação não-formal que enfatiza as atividades ao ar-livre, serviço a comunidade, a vida em equipe e o desenvolvimento pessoal.
Hoje, talvez vocês possam se perguntar: como uma organização, um movimento voluntário, continua existindo, depois de um século de história? As inúmeras transformações na política, no estilo de vida, nas ciências e tecnologias não teriam sido suficientes para extingui-lo?
A resposta é não! Não, porque nem tudo mudou! Apesar do Brasil e do mundo ter, de fato, se transformado ao longo deste século, é importante que nós, políticos, gestores, educadores e cidadãos em geral, olhemos com cuidado a nossa volta e assumimos nossa responsabilidade diante da juventude.

O Escotismo surgiu a partir das experiências educacionais do inglês Robert Baden-Powell, um militar de alta-patente, que viajava o mundo com a missão de manter os domínios territoriais do Reino Unido. A cada dia ele notava que apesar de seu país enriquecer, uma crescente parcela de jovens sucumbia as drogas, o álcool, a prostituição e a pobreza.
E não é exatamente este o cenário que nos deparamos hoje, passados 100 anos? Será que não é exatamente o que acontece com os jovens também em nosso estado? Quantas adolescentes em Ponta Negra não são aliciadas diariamente pelo turismo sexual? Que perspectivas de emprego possuem os jovens do semi-árido? Com que facilidades nossos jovens de classe media, em Natal ou Mossoró, tem acesso a drogas e o álcool?
A UEB esteve recentemente em Guamaré, uma região que vive um vertiginoso crescimento econômico nas últimas décadas com a exploração dos recursos naturais. A renda per capita aumentou 72% e a arrecadação pública multiplicou-se em 10 vezes nesse período. E de que maneira a juventude foi beneficiada por isso que chamamos de “desenvolvimento”? Resposta: num universo de 3 mil jovens em idade escolar, a taxa de evasão subiu para 27%. Os órgãos públicos não possuem estatísticas sobre a prostituição infantil, mas o posto saúde registra a cada mês mais de 20 adolescentes, menores de 16 anos, com exame Beta-HCG positivo.
E o que dizer das 40 mil crianças e adolescentes brasileiros em situação de conflito com a lei, dos 750 mil sem registro oficial, dos 600 mil sem escola e dos alarmantes 3,4 milhões de jovens brasileiros sujeitos ao trabalho infantil?
Não podemos crescer economicamente, investir na indústria, no turismo ou fazer uma Copa do Mundo em nossa capital, se esse dito “desenvolvimento” destrói nosso bem mais valioso.

Por isso o movimento não só continua existindo, mas também crescendo. Porque os problemas que nosso fundador, Baden-Powell, enxergou a remotos 100 anos atrás, na Inglaterra, continuam sendo atuais. Sua motivação, que nós renovamos ao longo de todo um século, em todo planeta, é de que precisamos dar aos jovens melhores perspectivas e a oportunidade de construir seu próprio futuro.
Nas origens e fundamentos do Movimento Escoteiro, portanto, reside a percepção essencial de que proteger e educar crianças e jovens são premissas fundamentais para qualquer sociedade...

Nossa intenção aqui não é simplesmente louvar nossa instituição ou apontar problemas, sem nos comprometer com as soluções. A cada novo dia, ano ou século, o Movimento Escoteiro renova o seu compromisso em construir um mundo melhor, por meio da educação não-formal.
Estamos aqui hoje, diante de todos, para renovar também nosso permanente convite para trabalharmos juntos. Somos uma organização baseada na mobilização voluntária e a participação juvenil. Temos muita história e potencial. E a história já nos provou que nosso potencial é ainda maior quando trabalhamos em parceria.
Os problemas de que falamos aqui, além dos inúmeros que não mencionamos, pertencem a todos nós, são nossa responsabilidade! Poder público (legisladores, executivo e judiciário), o mercado (desde grandes corporações a pequenas empresas) e a sociedade civil organizada (associações, ONG’s e pessoas comuns), precisam dialogar, comprometer-se e buscar soluções.

Mas para isso não precisamos esperar um século, podemos começar hoje mesmo.